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Juiz conhecido no meio da magistratura pela alcunha “saloio de Mação”

Carlos Manuel Lopes Alexandre, 54 anos, é apenas um juiz de primeira instância criminal, escrutinável por outros magistrados. O super juiz de Portugal a par de Rui Teixeira, não tem amigos na magistratura. Já poderia estar no Tribunal da Relação, mas não aceitou a promoção a desembargador, “não era a mesma coisa”, Referiu. É juiz do Tribunal Central de Investigação Criminal, responsável por alguns dos casos mais mediáticos em Portugal, como a “Operação Marquês”, Vistos Gold, Ricardo Salgado, etc.

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Carlos Alexandre acedeu falar perante as câmaras numa entrevista sobre a sua vida concedida à SIC, transmitida esta quinta-feira depois do telejornal. O juiz  lembrou a infância passada em Mação, falou do pai “austero” que oferecia chocolates  pelo Natal.

O  juiz admitiu que se sente escutado. Quando almoça fora do edifício onde fica instalado Tribunal Central de Investigação Criminal está sempre preocupado que alguém o esteja a ouvir. “Preocupo-me que as pessoas nas mesas do lado estejam a ouvir o que estou a dizer. Pessoas que recorrem a fontes humanas ou não-humanas, pessoas que recorrem ao mexerico”, referiu.

Questionado sobre se já identificou algo de estranho durante os seus telefonemas, o juiz admitiu que já ouviu um “restolhar de papéis, água a marulhar”. Mais: “Por vezes há pessoas que não conseguem estabelecer contacto comigo. O telefone vai abaixo, vai para voice mail quando estou em sítios onde tenho carga máxima e onde há pessoas que estão sentadas ao meu lado ao telefone. Não digo que são os serviços de informações, não estou a imputar. Estou só a dizer que conheço a maneira de ser e de proceder”

Questionado sobre a sua própria segurança, o juiz lembrou um incidente que aconteceu há nove anos. Em agosto de 2007, foi deixada uma arma em cima da fotografia do seu filho.

“Se tivesse medo não me levantava da cama. Portanto, aceito o meu futuro, o meu destino. Enquanto o assunto for comigo e espero que seja sempre comigo. Não vejo problema, porque estou em paz com as decisões que tomei”, afirmou, considerando porém que é “falível como toda a gente”. 

Carlos Alexandre fez questão de frisar que nunca procurou protagonismo e que até tenta desencorajar o uso de expressões como “super juiz”, “juiz sem medo” ou “juiz estrela”. “Tenho achado engraçada essa ideia que as pessoas têm de que sou um juiz estrela. Sou apenas uma pessoa que faz o seu trabalho. Tenho pedido sempre que não me tratem como tal porque isso só cria animosidade, até no meio em que me insiro a magistratura”.

Sem amigos na magistratura, considera-se um “bicho-do-mato”. As pessoas que lhe são próximas são poucas e até considera que, caso morresse, seriam poucos aqueles que compareceriam no seu funeral. “Sou o ‘Saloio de Mação’, com créditos hipotecários que tem de trabalhar para os pagar, não tenho dinheiros em nome de amigos, não tenho contas bancárias em nome de amigos.”

Ao fim de semana, costuma fazer turnos extras no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa para não se desligar da realidade do país e para pagar as contas ao final do mês. Como “não tenho fortuna pessoal, alguns encargos em que me meti só são sustentáveis se trabalhar mais”, explicou. “Como eu não tenho amigos, amigos no sentido de pródigos, não tenho fortuna herdada de meus pais ou de meus sogros, eu preciso de dinheiro para pagar os meus encargos. E não tenho forma de o alcançar que não seja através do trabalho honrado e sério.”

Carlos Alexandre admitiu que nunca teve medo, nem um “frio na barriga”. Contudo, já teve de tomar decisões que o deixaram desconfortável. “É evidente que há certos dias em que sou chamado a tomar decisões em processos que me são bastante desconfortáveis. Há certos dias em que fico desconfortável, perplexo perante o que me depara, por vezes revoltado por factos e circunstâncias de que chego a tomar conhecimento.”

Aprendemos nos anos de faculdade que todos os cidadãos são iguais perante a Lei, mas há uns que são mais iguais do que outros.”

Sempre convicto das decisões de toma, não é porém alheio a alguns pequenos arrependimentos. “Não é arrependimento de me ter enganado”, explicou. “Se as pessoas não tivessem falado certas coisas de certa forma não se tinham tomado determinadas decisões. Nesse sentido, já me posso ter arrependido.”

Questionado sobre se pensa abandonar o Tribunal Central de Investigação Criminal e passar para o Tribunal da Relação, Carlos Alexandre disse que lhe falta ainda preencher uma “série de requisitos”. “Não escrevi nenhum livro, farto-me de trabalhar, não tenho pós-graduações, logo aqui perco muita valoração”, afirmou. Apesar de ter dedicado os últimos 30 anos da sua vida à justiça, o juiz admitiu que os problemas de saúde mais recentes. seus e de um familiar. o fizeram repensar a vida. “Nunca digas nunca”, referiu. “Não sei se por uma razão de saúde própria, de saúde de alguém do meu lado, me faça pensar que a vida não é apenas trabalho.”

Assim fossem todos os juízes e juízas!

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